quinta-feira, 21 de julho de 2011

Léopold Denghor



Tutora: Tatiana Sena
Nome: Daniela Rosa da Silva


                                                Vida e obra de Léopold Sédar Senghor

"A emoção é negra, assim como a razão é helênica".
Senghor


Senghor nasceu em 1906, na cidade senegalesa de Joel. Seu pai, Basile Diogoye Senghor era um comerciante próspero da etnia minoritária de Serer, e sua mãe, uma muçulmana da etnia de Peul. Senghor tornou-se, em 1939, o primeiro africano a formar-se em licenciatura pela universidade parisiense de Sorbone. Aos 23 anos, tornou-se o primeiro professor africano numa universidade francesa, tendo sido igualmente o primeiro intelectual negro a ingressar na Académie Française, em 1984.
 Em 1958 foi eleito deputado senegalês pela Assembleia Nacional Francesa. Quando o Senegal foi proclamado independente, em 1960, Senghor foi eleito por uma unanimidade presidente da nova República, permanecendo no cargo até final de 1980, graças a reeleições sucessivas.
Senghor foi um dos mais empenhados combatentes pela independência do Senegal, então uma colônia francesa, mesmo tendo defendido a manutenção dos vínculos econômicos e culturais.  Entre 1959 e 1960, presidiu a breve Federação do Mali (formada pelo Senegal e pelo atual Mali). Após a dissolução desta, tornou-se presidente do Senegal independente. Com o apoio do Partido Socialista Democrático, tentou, durante seu mandato como primeiro-ministro (1962 e 1970), melhorar as condições de vida da população, recorrendo à aplicação de um programa socialista moderado. Como ardoroso defensor do socialismo, tentou desenvolver a agricultura, combater a corrupção e manter uma política de cooperação com a França.
Em 1980, renunciou tanto a seus cargos no partido como à liderança do país e aceitou a presidência da Internacional Socialista na África. A partir desse momento, dedicou-se mais intensamente à criação literária. Poesia e política surgem em sua obra como elementos do movimento literário e cultural "negritude". Como escritor, desenvolveu o movimento literário da Negritude, que exaltava a identidade negra e lamentava/criticava o impacto negativo da cultura europeia junto às tradições africanas. Suas obras mais conhecidas são Chants d'ombre(1945), Hosties noires (1948), Ethiopiques (1956), Nocturnes (1961) e Elegies majeures (1979).
Juntamente com Aimé Césaire, pregou a redescoberta pelos africanos de sua cultura como principal caminho para o reconhecimento da própria identidade ("regresso às origens").

Porém, seus ensaios e poemas só ficaram conhecidos após a Segunda Guerra Mundial, pois permaneceu num campo de concentração nazista durante dois anos.

Em 1983 foi eleito para a Academia Francesa de Letras e passou os últimos anos de sua vida entre a Normandia, Paris e Dakar. Senghor visitou o Brasil mais de uma vez, tendo recebido, em 1964, o título de Doutor em Honoris Causa pela UFBa. Senghor morreu em 2001 deixando uma vasta obra em prosa e poesia.
Sua obra foi traduzida para uma infinidade de idiomas: japonês, alemão, sueco, russo, italiano, português... e seus prêmios literários se somam aos que ganhou como político e estadista.  Foi Doutor em Honoris Causa em mais de vinte universidades.

O Movimento da Negritude

O marco inicial do Movimento da Negritude se dá com a publicação da revista Légitime Défense, em 1932, por um grupo de estudantes antilhanos. Porém  a revista não passou do  primeiro número pois despertou reações negativas chegando ao ponto de seus fundadores sofrerem represárias, até por parte de seus compatriotas.
Porém, o surgimento dessa revista terminou por influenciar fortemente o grupo que surgiu a seguir e fundou outra revista L'étudiant noir (o Estudante Negro). Além da revista, esse grupo desenvolveu intensa atividade, organizando reuniões, exposições, assembleias, publicando artigos e poemas em outras revistas, enfim, conseguiu fazer o mundo enxergar que existia, sim, uma cultura, uma civilização africana.
O impacto dessa publicação foi tão forte que Aimé Césaire — o primeiro a usar a palavra negritude em um poema — destruiu tudo o que tinha escrito até então. Para ele e para Léon Damas, foi uma surpresa maravilhosa ouvir Senghor falar de uma África jamais sonhada pelos negros da diáspora. A  África dos doutores de Tumbuctu, do império Ashanti, das amazonas do Daomé. A África cuja música não era feita somente de tambores, mas de sofisticados instrumentos como o khalam e o korá.
Como resultado do Movimento da Negritude ocorreu a publicação da Anthologie de la nouvelle poésie africaine et malgache, com prefácio de Jean Paul Sartre, em que o famoso escritor e filósofo francês escreveu: "Que esperáveis, pois, quando retirásseis a mordaça que tapava estas bocas negras ? Que elas vos entoassem louvores?"
A antologia  foi fundamental para revelar ao mundo a importância de uma infinidade de poetas africanos e malgaches (de Madagascar) que vieram a se tornar famosos. Posteriormente, em colaboração com o intelectual senegalês Alioune Diop funda a revista Présence Africaine, que também editou várias obras de escritores africanos em prosa e poesia.
Através da literatura, Senghor se tornou um dos maiores divulgadores da negritude, contribuiu para revelar ao mundo que a África produz cultura, que os africans sentem, se expressam, sofrem, constroem e reconstroem a sua realidade. Mais que isso,  seu trabalho alertou a sociedade para a necessidade de resgate/reconstrução da identidade, da cultura e dos valores africanos, o que contribuiu para que o mundo conhecesse as vozes africanas, seus desejos, sua visão de mundo, posicionamentos e expectativas. Para ele, negritude significava exatamente isso: a soma dos valores africanos. Valores esses que precisavam ser divulgados e apresentados ao mundo para que a própria visão que se tinha de África pudesse ser alterada a partir das vozes, do falar africano, e não das vozes de quem, de longe, fala de uma África tendo como ponto de partida as ideias divulgadas por outrem, ou seja, falam de um lugar que não é seu.


Poemas de Songhor

MULHER NEGRA

Mulher nua, mulher negra
Vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
Cresci à tua sombra; a doçura de tuas mãos acariciou os meus olhos.
E eis que, no auge do verão, em pleno Sul, eu te descubro,
Terra prometida, do cimo de alto desfiladeiro calcinado,
E tua beleza me atinge em pleno coração, como o golpe certeiro
de uma águia.
Fêmea nua, fêmea escura.
Fruto sazonado de carne vigorosa, êxtase escuro de vinho negro,
boca que faz lírica a minha boca
savana de horizontes puros, savana que freme com
as carícias ardentes do vento Leste.
Tam-tam escultural, tenso tambor que murmura sob os dedos
do vencedor
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.
Fêmea nua, fêmea negra,
Lençol de óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta,
nos flancos dos príncipes do Mali.

Gazela de adornos celestes, as pérolas são estrelas sobre
a noite da tua pele.
Delícia do espírito, as cintilações de ouro sobre tua pele que ondula
à sombra de tua cabeleira. Dissipa-se minha angústia,
ante o sol dos teus olhos.
Mulher nua, fêmea negra,
Eu te canto a beleza passageira para fixá-la eternamente,
antes que o zelo do destino te reduza a cinzas para
alimentar as raízes da vida.

VISITA

Na escassa penumbra da tarde,
sonho.
Vêm me visitar as fadigas do dia,
os defuntos do ano, as lembranças da década,
como uma procissão dos mortos daquela aldeia
perdida lá no horizonte.
Este é o mesmo sol, impregnado de miragens
o mesmo céu que presenças ocultas dissimulam
o mesmo céu temido daqueles que tratam
com os que se foram
Eis que a mim vêm os meus mortos.
Referências


Nenhum comentário:

Postar um comentário