terça-feira, 19 de julho de 2011

Os desafios de ensinar na EJA

Reflexões

(...) quando estamos lidando com o saber e o aprender, o que se vive é um cuidadoso e lento trabalho de lidar com momentos inesperados da experiência de vida de cada pessoa educanda. De olhar nos olhos uma gente que não raro precisou esperar mais da metade da vida para ser aceita em um banco de escola.
BRANDÃO, 2002

Ao contrário de uma falsa filosofia de aprender para a vida, aprender a ser, a conviver, e etc e tal, mas que se resume a uma lógica mercadológica  baseada numa competitividade cruel e atroz, que atropela, massacra e massifica, que tem a preparação para os vestibulares como fim único do processo educativo (não que isso também não seja importante, mas acredito que a educação formal é muito mais que isso), a filosofia implícita no fazer educacional da EJA é baseada numa outra perspectiva. Suas portas realmente estão abertas a quem queira entrar. A quem deseje entrar e não por mérito, mas por necessidade de vida. Temos então, na EJA, a mudança de uma lógica individualista, para uma verdadeira lógica do aprender com o outro.
Talvez por isso esse espaço termine se tornando um espaço de tantos significados para o educando. Ele não é o espaço apenas em que se aprendem as primeiras letras, mas é o espaço em que se fazem amigos, e espaço de socialização e de aconchego também. Elementos importantes para alunos que construíram relações antagônicas com a escola porque, na maioria das vezes, foram excluídos do sistema educacional por diversos fatores: por precisarem abandonar a escola para trabalhar, por que não conseguiam acompanhar as aulas, por que apresentavam dificuldades, porque moravam na zona rural, por que tiveram que assumir espaços de manutenção e de cuidados familiares e outras tantas razões.
Muitos desses educandos retornam às salas de aula da EJA com a esperança da estabilidade do emprego, com a idéia de que terão um novo lugar na sociedade, que construirão uma nova história, enfim, cheios de expectativas que, muitas vezes, não são correspondidas por que os conteúdos são vazios de significados, por que a criticidade dá lugar ao fazer pedagógico rotineiro e pautado apenas na formação técnica que termina não suprindo as necessidades de quem, de uma forma ou de outra, já está inserido no mercado de trabalho.
Além disso, a sala de aula da EJA torna-se, por excelência, espaço da diversidade. Diversidade étnica, religiosa, de idade (numa mesma sala de aula convivem juntos alunos de 15 a quase 90 anos, a depender a da localidade), diversidade sexual, política, temos adolescentes, pais e mães de família, trabalhadores/desempregados e alunos com necessidades educativas especiais, dentre outros.
Acredito que a grande diferença no trabalho a ser realizado ficará por conta do professor da EJA em conseguir reverter o pensamento hegemônico tradicional que veria apenas o lado negativo de tamanha heterogeneidade em sala de aula e conseguir elaborar um planejamento didático que consiga considerar os aspectos positivos de se aprender com as diferenças/heterogeneidades que inicialmente marcam uma dificuldade de trabalho, em potencialidades. Acredito que é essa capacidade de considerar as diferenças e partir dessas realidades que vai determinar o sucesso ou fracasso da turma.

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