quinta-feira, 21 de julho de 2011

Tráfico e escravidão no Brasil


Tutora: Tatiana Sena
Nome:Daniela rosa da Silva


Atividade da Unidade III

 Tráfico e Escravidão: Pensando a África e o Brasil


Em busca de argumentos que pudessem defender a instituição e legalização da escravização de africanos nas Américas, os europeus buscaram na própria história da África os argumentos necessários à legitimação da escravidão de seres humanos por outros, em razão de uma suposta supremacia racial que terminou por legitimar esse processo e torná-lo moralmente aceitável aos olhos dos homens, de toda uma sociedade e até da religião. O argumento em que os europeus se apoiaram foi o fato de existir, também nas comunidades africanas, diversas formas de escravidão. Dessa forma, o fato de haver, na áfrica um sistema de escravização de pessoas terminou por justificar a adoção dessa prática por mais de cinco séculos nas Américas.
Enquanto na África havia um sistema de servidão e escravidão onde os indivíduos que fossem derrotados em guerras eram capturados e considerados cativos destinados então à realização de trabalhos compulsórios (mais especificamente, eram destinados, em sua maioria, à escravidão doméstica), o que tinha uma grande diferença em relação ao tipo de escravidão instituída nas Américas, onde os escravizados eram usados como moeda, podendo ser trocados, vendidos, emprestados e/ou usados para a produção de outros escravos. Ou seja, nas Américas, foi instituída uma escravidão do tipo mercantil com fins comerciais.
Outra diferença observada no processo de escravidão instituído na África e o modelo instituído no Brasil é o fato de que, lá, os cativos realizavam basicamente as mesmas tarefas realizadas pelos membros da família, enquanto aqui, aos escravos eram destinados os trabalhos mais pesados, aqueles que os captores não estavam dispostos a realizar por serem considerados pesados ou inferiores, o que terminou por criar uma relação negativa com o trabalho. Trabalho passou a ser considerado “coisa de negro”, “coisa de escravo”.
Na verdade, não acredito que seja possível classificar o fato de seres humanos escravizarem outros como algo melhor ou pior a depender do modelo, mas acredito que seja importante ressaltar que havia diferenças de ordens  culturais que não podem ser desconsideradas, embora todas as formas de trabalho servil deveriam ser consideradas, no mínimo, moralmente inaceitáveis por qualquer sociedade humana. Entretanto, é preciso destacar que na África, a servidão não estava relacionada com cor/raça ou etnia. Esta relação não existia, inicialmente. Com o passar dos séculos e com a progressiva expansão de novas formas de trabalho compulsório induzida a partir do exterior, ligada à demanda por escravos no mundo islâmico, e, posteriormente, nas Américas foi que a relação entre  cor e escravidão passou a ser fundante. Quando os europeus passaram de consumidores marginais de escravos a grandes operados do tráfico, a nefasta associação entre “escravo” e “negro” já estava consolidada.
No Brasil, a escravidão foi marcada pelo uso de negros vindos do continente africano, embora muitos indígenas também tenham sido usados no trabalho servil. Os negros foram usados, principalmente, em atividades relacionadas à agricultura (nas lavouras de cana-de-açúcar), e na mineração, embora também desempenhassem atividades domésticas e serviços urbanos.
Com motivações puramente econômicas, a escravidão africana representou um grande negócio para a Coroa Portuguesa a ponto de os escravos tornarem-se a base das atividades econômicas aqui desenvolvidas, por, aproximadamente, cinco séculos.
A escravidão no Brasil se caracterizou como uma experiência de longa duração a marcar vários elementos da cultura e da sociedade brasileira. Mais que uma simples relação de trabalho, a mão-de-obra africana contribuiu para  a fixação de um conjunto de valores da sociedade brasileira em relação ao trabalho, aos homens, as mulheres e às instituições como um todo. 
Porém, mesmo tendo se tornado uma prática usual, existiram diversas formas de resistência; desde o conflito direto, a preservação de manifestações culturais e religiosas, a capoeira, as músicas, traços da cultura africana na culinária, o suicídio, o aborto e as fugas e formação de quilombos para refúgio, proteção, instituição de comunidades e organização da resistência armada. Não podemos esquecer também, da importância histórica que teve a guerra de Palmares, que pode ser considerado um dos maiores episódios de resistência escrava no Novo Mundo. Não há como negar que as comunidades palmarinas, tanto pela extensão territorial quanto pela quantidade de negros fugidos que abrigou, tornaram-se o maior quilombo da história da América Portuguesa.
Na Bahia, diversas revoltas marcam a indignação da população e a não aceitação dos escravizados da situação de escravidão. Dentre esse movimentos podemos citar a Revolta dos Malês. O movimento aconteceu  na madrugada de 25 de janeiro de 1835, na cidade de Salvador. A revolta envolveu cerca de 600 homens, o que parece pouco, mas esse número equivale a 24 mil pessoas nos dias de hoje. Os rebeldes planejaram o levante para as primeiras horas da manhã do dia 25, mas foram denunciados. Uma patrulha armada chegou a uma casa na ladeira da Praça onde estava reunido um grupo de rebeldes. Ao tentar forçar a porta para entrarem, os soldados foram surpreendidos por guerreiros africanos armados. Uma pequena batalha aconteceu na ladeira da Praça, e em seguida os rebeldes se dirigiram à Câmara Municipal, que funcionava no mesmo local onde funciona ainda hoje, para libertar um escravo (líder malê muito estimado) que estava preso em uma prisão localizada no subsolo da Câmara.
Esse primeiro grupo de rebeldes saiu pelas ruas do centro da cidade gritando para acordar os escravos que dormiam para que estes se unissem ao levante. Após percorrerem as ruas do centro da cidade, Pelourinho e Cidade Baixa, e foram massacrados nas imediações da feira de  Água de Meninos. Embora tenha durado apenas algumas horas, a revolta deixou a cidade em pavorosa e fez crescer, por muitos anos, entre os habitantes livres, o medo de que um novo levante escravo ocorresse na cidade.
Embora a historiografia brasileira sempre procurasse ocultar a rebeldia do negro contra  a escravidão como forma de manter a ideologia dos brancos como bons e os negros como passivos. Partindo de ideologias colonialistas e racistas, ela tenta mostrar os senhores como bondosos e os negros escravizados como passivos, como se eles aceitassem passivamente a condição imposta de escravo. Essa farsa ideológica só foi possível devido à escassez de documentos sobre as revoltas ocorridas no Brasil e também, à própria distorção da verdadeira história dos africanos no Brasil.
Essa é apenas uma pequena exposição de alguns aspectos da história dos africanos no Brasil e de como se deu esse  processo de escravidão - verdadeiro crime contra a humanidade - processo esse, que, embora oficialmente extinto, legalmente proibido, nos deixou marcas profundas e raízes difíceis de serem arrancadas. E para isso, e por isso,  estamos agora a reescrever  a nossa história, com um outro olhar, um olhar mais investigativo e que busca, antes de tudo, conhecer o passado para mudar o presente.






Referências

REIS, José João. A revolta dos Malês – Universidade Federal do Brasil




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