quinta-feira, 13 de outubro de 2011

 Trajetórias humanas no olhar dos educandos
“Tenho comigo as lembranças do que eu era”
(Nos Bailes da Vida - Milton Nascimento)
“Por que não ouvir as crianças, adolescentes e jovens adultos de nossas escolas? Propôs uma professora. Alguma coisa sabem sobre si mesmos”.

Ouvir o que sabem sobre si mesmos pode ser uma forma de valorizá-los. Vai se criando o consenso que se pretendemos conhecer e entender os alunos, um caminho pode ser confrontar nossas imagens sobre eles com suas próprias imagens.


Há muitas formas dos alunos(as) falarem de suas vidas, de suas trajetórias humanas e escolares, Dando voz àqueles que por tanto tempo foram silenciados, suas auto-imagens podem destruir tantas imagens estereotipadas que pesam sobre eles. Suas falas podem ser menos preconceituosas do que tantos discursos da mídia, da política e até da pedagogia. Nada melhor para rever nosso olhar sobre a infância, adolescência e juventude do que confrontá-lo com seu próprio olhar.


Estamos caminhando para alguns consensos: que é urgente conhecer melhor os alunos; que olhares negativos preconcebidos e preconceituosos não nos permitem entender-nos; que é necessário conhecer suas trajetórias escolares para além dos clássicos boletins e registros de notas, conceitos, aprovados ou reprovados; que sem conhecer suas trajetórias humanas não conheceremos suas trajetórias escolares. Cada coletivo da escola vai inventando formas diversas de aproximar-se dos educandos para clarear todas essas dimensões.


Alguns coletivos decidem programar momentos para melhor conhecer as trajetórias humanas dos educandos, para depois dedicar tempos a melhor conhecer as trajetórias Há uma inter-relação estreita entre ambas. As trajetórias humanas condicionam as escolares. È fundamental conhecer aquelas para entendermos essas. Sobretudo as trajetórias humanas, sociais, coletivas, de classe, de gênero, raça, idade, dos setores populares, estão estreitamente emaranhadas com suas trajetórias escolares...


Ouvindo as trajetórias, nas pesquisas feitas com os alunos, nos depoimentos, nas redações, nas letras de rap, na peça de teatro, na poesia, no conto, no cordel, no desenho, na colagem, no trabalho com argila, com massa, fica exposta a lúcida consciência que tem de suas trajetórias, Suas histórias nada tem de adocicadas. Não querem sentimentalismo. Apenas uma compreensão respeitosa.


Como os vemos, como se vêem? Que nas escolas se dediquem tempos a responder estas perguntas é extremamente promissor. Aprender a escutar, a estar atentos, pode exigir quebrar imagens idealizadas, construir outras.


Pedagogia com diálogo sempre foi mais pedagogia. Em clima de monólogo tudo pode acontecer, menos pedagogia. Reaprender a ver e escutar os alunos pode ser um novo tempo educativo. Abrir-nos aos alunos pode ser a melhor forma de abrir-nos aos complexos e tensos processos de se constituírem humanos. Não é nesse terreno que pedagogia-docência encontram seu sentido? Ver em sua trajetória que esses processos não são tão dicotômicos: os bons e os maus, os ordeiros e os violentos, os inteligentes e os burros, os disciplinados e os indisciplinados... Toda dicotomia é cômoda e simplória. Quando essa dicotomia rege o olhar docente é anti educativa. As vidas dos alunos são complexas demais para caberem em classificações dicotômicas, simplórias.


Tentando responder as perguntas como os vemos, como se vêem, fomos leitores de nós mesmos e os alunos leitores de si mesmos. Essa aposta em ler nossa docência a partir da leitura que fazemos da leitura que crianças, adolescentes e jovens fazem de suas histórias pode significar uma aposta pela renovação da docência.
Texto adaptado de: ARROYO, Miguel. Imagens quebradas de Miguel Arroyo – Rio de Janeiro, Ed Vozes, 3º. Edição – 2004.
2 Paulo Freire: A Leitura do Mundo
Frei Betto, 1997

“Ivo viu a uva”, ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e na Guiné-Bissau, na Índia e na Nicarágua, descobrirem que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou se uva é natureza ou cultura.


Ivo viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É criação, é natureza. Paulo Freire ensinou a Ivo que semear uva é ação humana na e sobre a natureza. É a mão, multi-ferramenta, despertando as potencialidades do fruto. Assim como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos de evolução do Cosmo.


Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo, o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com trabalhadores do SESI de Pernambuco, Ivo viu também que a uva é colhida por boia-frias, que ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham melhor.

Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não eram capazes de construir como Ivo. Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe ninguém mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social. Ivo viu a uva e Paulo mostrou-lhe os cachos, a parreira, a plantação inteira. Ensinou a Ivo que a leitura de um texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre texto e contexto que Ivo extrai o pretexto para agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis de Ivo que importa. Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito histórico.

Ivo viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a uva. O que Ivo vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Ivo um princípio fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam.

O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a visão Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os pés na Terra, e a de Copérnico, ao imaginar-se com os pés no Sol.


Agora Ivo vê a uva, a parreira e todas as relações sociais que fazem do fruto festa no cálice de vinho, mas já não vê Paulo Freire, que mergulhou no Amor na manhã de 2 de maio de 1997. Deixou-nos uma obra inestimável e um testemunho admirável de competência e coerência.


Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu coração que tanto amou, pediu que eu fosse representá-lo. De passagem marcada para Israel, não me foi possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita, sua mulher, e os filhos, em torno de seu semblante tranquilo: Paulo via Deus.

3 Orientações para Leitura do Mundo
Ângela Antunes

A Leitura do Mundo nos permite um mergulho no contexto em que está inserido o grupo com o qual trabalharemos e, por meio dela, podemos vincular a construção do conhecimento à realidade do grupo/da comunidade e colocar o conhecimento, historicamente acumulado, a serviço dos seres humanos e da transformação social.


O conhecimento tem uma função social: contribuir para revelar a realidade opressora e criar condições de criação de novas realidades: mais justas, solidárias e humanizadoras.


A Leitura do Mundo tem uma função pedagógica em si mesma. Nós aprendemos não só com os resultados, mas também no processo.

Ela é a interpretação das interpretações, é processual e deve ser compartilhada/confirmada com os grupos envolvidos.


A Leitura do Mundo exige compromisso, sensibilização, cumplicidade, fantasia, sonhos, utopias. Quanto mais ampliada a Leitura do Mundo, mais chances temos de nos aproximar criticamente da realidade vivida. Por isso, ela deve ser feita de forma dialógica.


A Leitura do Mundo implica, entre outras, as seguintes dimensões:
  • SOCIAL: inclui aspectos relativos a moradia, lazer, trabalho,emprego, desemprego, espaços de convivência, indicadores sociais etc.
  • POLÍTICA: Observação da presença de movimentos organizados, exercício do poder nas lideranças comunitárias, nas igrejas, nos colegiados escolares e conselhos municipais, políticas públicas sociais etc.
  • ECONÔMICA: pesquisa as condições de vida, poder aquisitivo, acesso aos bens materiais básicos para a sobrevivência, renda familiar etc.
  • CULTURAL: refere-se à observação da diversidade, gênero, orientação sexual, etnia, faixa etária, biotipo. Acesso aos bens culturais do bairro, da cidade, da comunidade; se tem espaços culturais, de produção da cultura, como observam as questões de gênero, racial, étnica, sexual, religiosa, etc. Como lidam com o preconceito, intolerância, violência, com os valores, com a diferença, com as semelhanças etc.
  • SOCIOAMBIENTAL: Relações humanas, princípios de convivência no núcleo de alfabetização, no bairro, na cidade, qualidade de vida e vida de qualidade, valores para uma cidade educadora, utilização da água, energia elétrica, lixo, estética da escola, saneamento, etc.

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